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A caridade

Roma tornou-se hábil em aproveitar dos temores místicos e vícios de seus cidadãos. Introduzindo a lei das indulgências, ensinava ao povo que, pelo pagamento em dinheiro à igreja, poderiam livrar-se dos pecados cometidos, e igualmente livrar as almas de seus amigos ou parentes falecidos que estivessem, pelas regras desta igreja, sofrendo as penas das chamas atormentadoras. Por estes meios, a igreja abarrotou ainda mais os seus cofres e sustentou a magnificência, o luxo, e os vícios dos seus representantes. O povo foi sobrecarregado sempre de maiores exigências. Ensinavam-lhe não somente a considerar o Papa como seu mediador, mas a confiar em suas próprias obras para expiação dos pecados. Começaram aí as histerias que vigoram até hoje em muitos lugares, cultos pagãos e supersticiosos foram instaurados e ainda que longas peregrinações, atos de penitência, adoração de relíquias, imagens e relicários, rezas coletivas, e com o pagamento de grandes somas à igreja, eram ordenados lugares Santos, para aplacar Deus e segurar-se o Seu favor. Antigos escritos foram forjados pelos monges, decretos de concílios de que nunca se ouvira antes, foram descobertos em conjunto com o aumento do domínio da igreja romana.

Com estes meios, a Igreja acumulava enormemente as suas riquezas. As recomendações de Cristo da Lei do Amor e da ceia de Jesus, foram em definitivo suplantadas pelo idolátrico sacrifício da missa, cultos e orações e cânticos, e sua importância material superou a importância espiritual e o papado tornou-se o déspota do mundo. Reis e Imperadores curvavam-se aos decretos do pontífice romano. O destino dos homens, tanto temporal quanto eterno, parecia estar sob o seu domínio. Durante séculos, as doutrinas de Roma tinham sido impostas com a força e, depois de implicitamente recebidos, seus ritos vieram a ser reverentemente praticados, sua festas, geralmente observadas. Seu clero veio a ser honrado e ainda liberalmente mantido pelo povo. A igreja sonhada por Constantino atingiu assim dignidade, magnificência e sempre mais poder. Generalizou-se a adoração das imagens. Acendiam-se velas diante delas e orações e cultos lhes eram dirigidos, prevalecendo os costumes pagãos mais absurdos e supersticiosos. Os espíritos dos homens chegaram a tal ponto dirigidos pela superstição, que mesmo a razão perdeu totalmente o seu domínio. Enquanto os próprios sacerdotes e bispos eram amantes dos prazeres sensuais e corruptos, o povo, que os tinha como guias, submergia na miséria, na ignorância e na superstição. Muitos historiadores argumentavam que, como senhor feudal, o clero era muito pior de que muitos feudatários leigos. Tão grande era a opressão dos seus servos, pelo Cabido de Notre Dame de Paris, no reino de São Luiz, que a Rainha Blanche protestou "com toda humildade", ao que os monges lhe replicaram, que "eles podiam matar os seus servos de fome se lhes prouvesse".

Alguns historiadores pensaram até que se exagerava o valor da caridade, apesar de que, a igreja mantivesse ordens de religiosos para cuidar de doentes e pobres, pois estes ainda recebiam doações específicas do povo. E havia muitos a sustentar, que porém eram os nobres que realizavam mais caridade ao povo, de que a igreja, que destinava estes recursos para aumentar mais ainda aquilo que já era considerada uma tremenda riqueza, e estes críticos observavam ainda, que se ela não tivesse extorquido tanto, o povo teria menos necessidade da caridade. A caridade passou assim a ser instrumentalizada.

Removida a Lei de Deus, as normas de justiça e dos antigos ensinos, exerciam eles, com poder sem limites, a prática dos vícios sem restrições. Prevaleciam as fraudes, a avareza, a libertinagem. Os homens não recuavam diante de nenhum tipo de crime pelo qual, podendo adquirir riqueza e posição, podiam comprar o perdão da igreja. O direito civil foi influenciado por esse novo conceito de benevolência, porém, naquilo que era administrado pela igreja. Os palácios dos Papas e prelados eram cenários das mais vis devassidões, onde até alguns pontífices reinantes eram acusados de revoltantes crimes, mas nenhuma justiça ou poder da terra podia com eles. Ninguém podia opor-se ou julgar a Igreja Católica Apostólica Romana na Terra.

Durante séculos a Europa não fez progressos no saber, nas artes ou na civilização. Uma paralisia moral e intelectual caíra sobre a suposta cristandade. A luz da verdade parecia definitivamente extinta. O sistema feudal, repousava sobre a organização mafiosa da Igreja, pois em troca das contribuições, os bandidos recebiam dela perdão e proteção espiritual o que deixava as classes trabalhadoras à mercê das classes parasitárias, que concediam terras, não a quem as trabalhava e cultivava, mas aos capazes de apoderar-se dela.

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