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A minha vinda ao BrasilVim ao Brasil em 1976, e cabe porém dizer, que quando ainda, em 1975 estava na Itália, já pensava em ir embora. Só não podia porque não havia como largar tudo, pois ainda havia muitos compromissos lá. Tinha muitos dependentes e vários canteiros de obras, mais ou menos uma centena de pais de família, que não podia dispensar só porque eu queria ir embora, mas estava cansado do frio, dos problemas e dos longos meses do inverno, pois calor mesmo, são somente três meses por ano, dos quais, um é Junho, que é muito quente na região do Norte da Itália, pois é pavoroso, quando na cidade grande, no meio da poluição e do concreto, o ar fica tão quente, que não há como respirar. O resto do tempo é frio, muitas vezes abaixo de zero e as roupas são agasalhos sempre pesados. Nasci lá, mas nunca me acostumei ao frio de lá, e nisso piorei depois que estive na África. Não sabia aonde queria ir, mas sentia que o meu lugar não era lá. Quando as minhas coisas começaram a ficar difíceis lá, por causa da crise no trabalho provocada pela alta dos preços do petróleo árabe, de certa forma, fiquei aliviado, porque sentia que iria partir para começar de novo num outro lugar, pois não queria mais ficar lá. Apesar de que a situação me causou muito prejuízo, não me desesperava, pois tinha certeza de que ia me recuperar, só que devia ser debaixo de outro céu. Comecei a procurar, pois havia países abertos à imigração, Austrália, Canadá, ou até Estados Unidos do Norte, mas lá havia alguma coisa que me repelia, pois os americanos de lá, para mim são todos perigosos, pois sempre os vi matar gente nos filmes e na televisão. Conheço Austrália e Canadá, somente pelos filmes. Já de criança via estes filmes violentos e especialmente os americanos, onde eram sempre "os nossos" que chegavam com a cavalaria para matar um monte de índios, que somente lutavam para não perder as suas terras, que os colonos sempre lhes queriam simplesmente roubar, pois essas histórias eu as via assim. Depois via a guerra de secessão, de irmão contra irmão, como uma verdadeira carnificina para assegurar os direitos de uma parte que não queria abolir a escravidão. Depois os filmes das "gangues", dos bandidos da lei seca, e ainda da guerra do Pacifico, Guadalcanal e dia D, e quantos filmes, até o desembarque na Normandia. A guerra na Itália e os bombardeios, eu os vi e alguns os sofri. E o que dizer de Nagasaki e Hiroschima? Depois veio a Coréia, Vietnã, Camboja, Líbano, Granada, Líbia, Nicarágua, Panamá, Afeganistão. E a guerra do Golfo? E a última na Iugoslávia, da Bósnia? Esta gente continua sendo bastante perigosa. Nunca fui para lá, mas também nada me chama para lá, nunca tive curiosidade de ver nada de lá. Não gosto e jamais gostei, sempre há os mocinhos, que nada mais são de que frios assassinos. Ganha sempre a justiça no final, mas a justiça é sempre aquela do mais forte, onde o fraco é sempre aquele que nunca tem razão, como os índios. Já a guerra dos índios, que coisa desigual. Os mocinhos ganhavam sempre, pois os índios não tinham reforços, armas e alimentos, naturalmente eram sempre aqueles que perdiam. Passou muito tempo, agora estou no Brasil e gosto daqui, mas continuo vendo filmes americano que só mostram violência. Os mocinhos agora matam todos com uma cruzinha brilhante no peito, que levam pendurada e fazem questão de mostrar. Hoje penso que já tinha razão e penso sobre a carta de Seattle, do chefe dos índios que responde ao presidente americano que queria a sua terra, que alguns anos mais tarde vim a conhecer. Penso nas perguntas do índio – que deus é este que anda ao lado do homem branco e lhe fala como amigo? Pois o índio não conhecia, porque para ele, Deus é um todo que dá a vida, e o deus do homem branco o instigava a matar as pessoas, os búfalos, fazia matança de homens e animais. Que deus era esse? Que deus seria esse, perguntava o índio? É aí que está, pois nós também podemos perguntar, que deus é esse? Que deus seria esse, que sempre esteve ao lado do homem quando ele vira besta e mata, destrói a natureza e rouba? Não é o Criador, isto é evidente. Trata-se de um impostor? É difícil entender, eu vim compreender tudo isso mais tarde, pois já podia-me preanunciar que esta foi a razão, não só de ter vindo depois ao Brasil, mas aquela que me levou a nascer novamente. É um impostor que um imperador romano pagão, colocou nos altares para poder santificar os abusos que ele mesmo poderia cometer na extensão da violência e do poderio romano. Que depois dele os seus filhos usaram e quando também morreram, outros corruptos herdaram e usaram e de mão em mão chegou até hoje. Só que como o índio, agora lendo este livro, serão muitos que irão perguntar, mas que deus seria este, que levou todos ao Juízo? E encontrarão a resposta, como o índio que já disse também, que um dia o homem branco descobreria que era o mesmo Deus do homem vermelho e de todos os animais, que tinha a mesma compaixão tanto com o índio como com o homem branco, que teria um dia ficado nu diante d’Ele. Comprei uma passagem e em 19 de março de 1976 chegava ao aeroporto de Congonhas em São Paulo, no Brasil, como turista, para conhecer o país. Passei alguns dias em São Paulo, e queria ir a Belo Horizonte, onde já se projetava a FIAT e ir ao Rio de Janeiro antes de regressar para a Itália e decidir sobre o futuro. Entretanto, ao desembarcar encontrei dificuldades no aeroporto, pois não entendia uma palavra de português e ninguém me entendia em italiano ou outra língua conhecida por mim. Daí um senhor, falando em italiano, se disse filho de imigrantes e que trabalhava como taxista. Ofereceu-se para me ajudar, levando-me para um hotel na cidade, onde compreendiam a minha língua, e assim fui hospedar-me no Cá d’Oro perto da praça da República. Era um hotel de elevada categoria, e já no primeiro dia encontrei empresários e pessoas que me abriram várias possibilidades de negócios e até bons empregos. Achei que através de um emprego podia conhecer melhor o ambiente inclusive auto-sustentar-me. A família, no momento, não me preocupava, porque havia caixa e muita coisa miúda que podia ser vendida para fazer dinheiro rápido lá na Itália, além de possuir fundos de giro, pois a empresa estava reduzida, mas ainda estava funcionando. Mas uma proposta que havia recebido me chamava mais a atenção: tratava-se de trabalhar, dando apoio técnico a um engenheiro gerente na construção de uma fábrica de estruturas metálicas, a primeira parte era a construção de uma galvanização a fogo em Jacareí, no Vale do Paraíba. Pedi para fazer uma vistoria no local da obra, e a firma mandou um carro com motorista para me levar ao local. Quando cheguei, gostei do local e achei que, se tivesse decidido transferir-me definitivamente para o Brasil, os meus filhos poderiam ambientar-se bem naquela cidade rural, pequena e bastante parecida para mim com a velha e saudosa África de minha juventude que nunca esqueci. A proposta era boa e a diretoria era composta de Engenheiros que falavam bem o italiano. Devia só considerar bem se era isso o que realmente queria. Já havia vários anos que estava afastado do trabalho da obra, no campo, pois seguia as obras administrando-as do escritório, e aqui o caso era voltar a pôr as mãos na massa, como se diz; e conseguiria? Valia a pena? O ambiente era muito diferente já a partir da mão de obra muito pouco qualificada. Devia-se montar uma fábrica de estruturas com uma grande galvanização a fogo e formar as equipes que depois deveriam mantê-la funcionando com pessoal qualificado até na sua manutenção. Para mim era um desafio, mas acreditava que valia a pena esta mudança de rumo, especialmente para o futuro dos meus filhos e netos. De empresário deveria voltar a trabalhar como empregado para começar tudo novamente. Acostumado à vida de uma grande cidade italiana como Turim, deveria vir para morar numa cidadezinha rural do Vale do Paraíba onde certamente não havia as diversões que conhecia, mas alguma coisa, dentro de mim me empurrava para isso - eu o sentia. Então não tinha que fazer um contrato. Eu viajaria, para a Itália e voltaria em pouco tempo, inclusive com visto de permanência que já tinha tratado no consulado brasileiro da Itália para o caso de decidir depois vir para o Brasil. Não aceitaram, assumindo como empresa de tratar eles mesmos da regulamentação de minha permanência e deveria começar já, de imediato, em função de problemas técnicos a serem urgentemente resolvidos. Decidi ajudar no caso, para depois de um tempo voltar para a Itália e acertar minhas coisas, mas não havia possibilidade pois tinha assumido muitas responsabilidades, ganhava bem e todos estavam satisfeitos. Depois havia um fato básico, passei a gostar muito do lugar que me parecia conhecer há muito tempo e achei que mais uma vez podia começar tudo de novo. Considerei a discriminação como desafio e fui considerar, que aquilo que tinha feito até lá, devia fazê-lo, para agora encontrar uma nova tarefa na vida - em que eventualmente recuperaria tudo aquilo que deixara lá na Itália. De começo já tinha um bom emprego e o resto viria depois. Então telefonei para minha mulher, na Itália, informando-a da minha decisão de tentar ficar aqui, orientando-a, depois de pouco tempo, a deixar uma procuração geral ao meu advogado - que conhecia bem a minha situação lá - para que ele realizasse todo o ativo que cobria muito bem o passivo, liquidando todos os meus afazeres lá, guardando a diferença ativa a minha disposição num banco e ela deveria comprar as passagens de avião e vir para cá com todos, onde eu já teria alugado uma boa casa, equipando-a com o mínimo necessário. Pouco tempo depois, fui ao aeroporto de Viracopos em Campinas, para recebê-los: minha mulher, os dois filhos, minha sogra e até o cachorro que meu filho menor fez questão de trazer. Começamos tudo de novo. Cumpri a minha tarefa na fábrica deixando-a do jeito que me pediram. Depois de três anos e meio recusei um aumento do dobro de meu salário, porque achava que já podia tentar abrir o meu caminho por minha conta e pedi demissão, enfrentando o mundo do trabalho como um pequeno empresário. Não foi fácil, mas consegui abrir um espaço, fui à luta pegando os meus filhos para trabalhar comigo. Trabalhei na construção - na prestação de serviços, mas foi na pintura industrial e civil que abri o meu espaço. Inclusive comecei a fabricar tintas que vendia e usava nas obras da minha empresa. Cheguei a empregar quase 100 funcionários, mas não tinha considerado o ciúme que a gente desperta em volta quando, trabalhando, consegue levantar a cabeça. Há muita discriminação e corrupção em muitos setores onde a capacidade real conta pouco, pois conta mais o apadrinhado. Por isso fui sofrendo vários prejuízos e até chantagens deliberadas por parte de fiscais, até que pensei em aproveitar o fato de ser italiano, tentando algum negócio em combinação com alguma empresa de lá, pois estava novamente em dificuldades. Mas voltando um pouco na minha história, pouco depois de ter deixado o emprego, apareceu uma oportunidade, pois através de um corretor - recebi a proposta de adquirir uma fábrica de massas alimentícias em São Paulo. Era uma fábrica grande daqual alguns bancos queriam a falência, por falta de confiança nos herdeiros que a dirigiam. Havia muitas dívidas a serem assumidas, mas aceitariam renovar os créditos com uma nova diretoria e teriam aceitado que eu fosse para lá. No final, o negócio não deu certo, não houve conclusão pois comecei a realizar várias reformas operacionais. Logo depois de começar a tomar conta, houve um novo impulso, os fornecedores se mostraram dispostos em abrir novamente o crédito e a clientela voltava. Então os herdeiros começaram a fazer chantagem emocional, pois começaram a choramingar que os seus pais teriam se virado nas suas sepulturas e coisas assim. Naquele ponto, já que nunca foi minha intenção aproveitar-me de ninguém, desfiz o contrato na hora. Retirei-me reintegrando-lhes a posse e acabaram falindo depois, mas meu filho Mário, o mais novo, me acompanhava quando ia para lá e a gente conversava no carro. Um dia ele me perguntou SE EU ACREDITAVA EM DEUS. Se eu acreditava na continuação da vida depois da vida. Qual era a minha opinião diante das várias religiões. Descobri, naquele momento, que não sabia responder a um rapaz de 18 anos, a estas perguntas, com respostas claras e convincentes. Quando me propunha a responder nem eu aceitava as respostas. Lembro-me de que, na minha volta aproveitei para passar em uma livraria e comprei um livro A TERCEIRA VISÃO de Lobsang Rampa, um monge tibetano que escreveu um total de 19 livros sobre o espiritualismo - que acabei comprando um a um. E os melhores emprestei depois para meus filhos, mas serviram muito bem também para mim. Estas leituras, inclusive, acordaram em mim as minhas curiosidades de jovem - de quando já nas minhas andanças tinha procurado respostas ao meu senso místico. Respostas que até os monges capuchinhos, meus antigos professores, não tinham sabido dar quando os procurava já depois de casado, em Turim. Mas voltando às tintas, eu tinha pesquisado e elaborado, tanto as fórmulas como o processo de fabricação, traduzido em termos muito simples o processo todo, com bons preços e qualidade satisfatória. Tinha patenteado o processo todo e fui pioneiro em "franchising", pois tinha cedido os direitos de fabricação a pessoas de algumas regiões do Brasil, com o pagamento feito em pedras semipreciosas lapidadas que acumulei como patrimônio. Recebia as pedras, por sinal baratas no Brasil, como dinheiro em pagamento. Depois de certo tempo tinha acumulado uma certa quantidade de pedras, e ainda, tinha conhecido pessoas que podiam fornecer pedras para exportar, abrindo uma linha de crédito interessante para mim. Surgiu então a idéia de tentar superar as dificuldades criadas aqui ao redor do meu trabalho, e da inflação, projetando-me nesta possibilidade de colocar estes produtos não perecíveis no mercado da Itália. Pois afinal, sobraram lá ainda alguns recursos. |
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