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Os feudos

A Igreja possuía feudos ligados aos conventos, que, somados, vinham a totalizar a posse física de mais da metade das terras férteis da Europa. Seus cofres eram cheios de ouro e prata, provindos ainda de todos os tipos de malversações e dos aventureiros que se lhe avassalavam, dos quais recebia fortunas imensas. Mas o seu ouro não podia ser usado para multiplicar-se, pois não havia saídas, não podia ser investido em negócios, porque estes eram poucos e as coisas não eram compradas, os feudos eram auto-suficientes e havia intercâmbio só para o sal e talvez algum ferro. Os servos cultivavam o seu alimento e com as próprias mãos fabricavam tudo.

As transações dos excedentes se efetuavam no mercado semanal que normalmente era mantido junto dos mosteiros ou castelos, ou cidades próximas. Esses mercadores estavam sob controle da igreja local, mas o comércio era de baixo nível, pois não havia razões para produções em grande escala. A dificuldade da sua intensificação estava também nas péssimas condições das estradas, enlameadas, estreitas, normalmente freqüentadas por bandidos e salteadores e senhores feudais que pretendiam pedágio para trafegá-las.

Mas chegou o dia em que o comércio começou a crescer vindo a afetar a vida da Idade Média. O século XI começou a ver transformações, pois, começavam as Cruzadas que necessitavam de provisões e os que destas regressavam traziam gostos novos e roupas mais requintadas. Sua procura criou mercado para estes produtos e ainda, dezenas de milhares de europeus entravam nestas aventuras de atravessar o continente por mar e terra para arrebatar a Terra Prometida aos muçulmanos.

Muitas destas pessoas eram aventureiros que viam nisso a possibilidade de melhorar as suas vidas. Freqüentemente as guerras eram de fronteira contra os muçulmanos e contra as tribos da Europa oriental, que na realidade, se constituíam em incursões e pilhagens de bandidos. Mas a Igreja envolveu essas expedições de saques, num manto de respeitabilidade fazendo-as parecer como se fossem guerras com o propósito de exterminar os pagãos, difundir o Evangelho e ainda, defender as Terras Santas.

Completa remissão dos pecados passados, presentes e futuros, e livramento de todas as penas que os pecados comportam, eram prometidos pela Igreja a todos aqueles que se alistavam nas guerras com as quais ela podia estender o seu domínio temporal para castigar os seus inimigos e exterminar aqueles que lhe negassem o reconhecimento do seu poder temporal e supremacia espiritual.

Desde o século VIII ao X realizaram 34 expedições à Terra Santa e 117 no século XI . Havia a Igreja de Bizâncio com sua capital em Constantinopla que, muito perto do centro muçulmano da Ásia, sofria os seus avanços, e a Igreja Romana que via nas Cruzadas a possibilidade de estender o seu poderio, e o Papa Urbano II, em 1095, alimentava a política dos nobres e cavalheiros quebrados que desejavam os saques. Queriam arregimentar bandidos e ladrões para jogar-se numa atividade nobre que lhes possibilitava adquirir terras e fortunas. Queriam pagar as suas dividas nas pilhagens protegidos pela bandeira da santidade.

As cidades marítimas e portuárias Italianas como Veneza, Gênova, Pisa, e outras localidades do arquipélago, já comercializavam com as cidades da Ásia Menor e desejavam privilégios em candidatar-se às Cruzadas. Mas foi Veneza que se aliou aos nobres barões europeus que representavam a Igreja, sob a condição de que, enquanto perdurasse a aliança, partilhariam de tudo aquilo que fosse conquistado por mar ou por terra, pela metade. Por este acordo o Doge de Veneza forneceu os transportes por mar com capacidade de transporte de 4.500 cavalos, 4.500 cavaleiros, 9.000 escudeiros e 20.000 soldados de infantaria, tudo protegido por 50 galés armadas.

Este acordo despertou a Europa do seu sono feudal, vieram espalhar sacerdotes, armadas de guerreiros, trabalhadores e comerciantes de toda parte abrindo espaços e, do Mar do Norte ao Báltico, os navios corriam para apanhar coisas, peixes, peles, madeiras, couros, pelicas etc., que transportavam às feiras periódicas da Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha, Itália. Depois do século XII, a economia de muitos países começou a determinar-se, entretanto, a única língua escrita era ainda o latim e o seu ensino era administrado pela igreja católica, sempre mais estabelecida.

Mesmo antes do estabelecimento do papado, já havia quem desse atenção aos ensinos dos filósofos gregos e muitos também depois, que se diziam conversos, continuaram ainda se apegando a estas filosofias que lhes exerciam influências e continuavam a estudá-las. Em resposta a isso, no século XIII foi estabelecido o mais terrível de todos os estratagemas do papado:- a instituição do Tribunal Eclesiástico da Igreja, que deu início a Grande Inquisição, onde, "a Grande Babilônia se embriagou do sangue dos Santos, e os corpos mutilados de milhões de Mártires pediam vingança a Deus, contra este poder trevoso que Ele tinha deixado que se desenvolvesse na Terra".

Mas em cada época houve testemunhas de Deus. Homens que Lhe acalentavam fé e foram a ser estigmatizados e suprimidos como hereges, difamados e mutilados nos seus escritos, por não aceitar a doutrina e a supremacia da igreja, do Papa e das suas estátuas. No entanto, permaneceram de século em século firmes em sua fé. Estas histórias deste povo de Deus, durante os séculos das trevas que se instauraram na Europa, estão escritas no Céu e não se acredite que não existam, por terem tido pouco espaço nos registros da Humanidade, pois foi tática de Roma obliterar os vestígios de dissidência das suas doutrinas e decretos. Os Concílios papais já decretavam que todo escrito ou relato desta natureza, devia ser lançado às chamas, mas nada se perdeu, tudo está registrado inclusive o que fizeram e quem fez, e tudo deverá ser expurgado.

Antes da invenção da imprensa, os livros eram pouco numerosos e de forma desfavorável a preservação, portanto não havia como descobrir os enganos ideológicos que a igreja levava adiante e não havia como impedir que os Romanistas levassem adiante e a termo os seus desígnios. Ainda hoje, nos meados de 1998, esta conversa está difícil, pode-se daí fazer comparações....Expressões de dúvidas, simplesmente, quanto à autoridade do dogma papal, eram suficientes para tirar a vida do pobre ou do rico, do elevado ou humilde, o mundo era governado por simples bandidos, que ainda se esforçavam por destruir todo registro de suas crueldades e perseguições.

Mas, à medida que o comércio crescia, todo pequeno broto recebia impulso, e um dos maiores efeitos foi o crescimento dos mercados e das cidades. Na Itália e na Holanda foi onde cresceram primeiro e depois aquelas que eram situadas nas embocaduras dos rios, pois ali podiam receber e despachar as mercadorias. Nestas, havia geralmente uma zona fortificada chamada de "burgo", onde havia geralmente a sua igreja.

Depois do século XII, a economia começou a desenvolver-se em volta de muitos mercados, e com este crescimento, também a economia do feudo foi influenciada pelo dinheiro que provinha de um mundo de comércios. Havia expansão, e à sombra das catedrais, nasciam cidades e o povo começava a deixar os feudos para iniciar lá vidas melhores. Toda a atmosfera dos feudos era como da prisão, ao passo que a cidade representava a liberdade onde novos padrões de vida tinham que ser criados, pois desejavam a liberdade das terras feudais. As populações urbanas lutavam para elaborar as suas legislações e a paz urbana.

A liberdade da cidade, não era concedida de uma só vez, mas aos poucos, lutando, de uma ou outra forma, as condições começaram a mudar. Os bispos e os senhores feudais percebiam que estavam acontecendo mudanças para melhor, mas particularmente os bispos, em geral, cerravam os dentes e não largavam os seus camponeses e trabalhadores, até que se vissem forçados a isso pela violência das cidades que ficavam revoltada por este comportamento. As populações das cidades eram dirigidas pelas associações de mercadores organizados, não eram revolucionários e não queriam confusões, não lutavam contra as senhorias, mas queriam o fim das práticas feudais. Opunham-se à municipalidade controlada pelo imposto feudal, pagamentos, ajudas, e multas que eram irritantes, e uma série de dificuldades para aborrecer e retardar um mundo em evolução. As cidades desejavam libertar-se das interferências com as suas expansões, mas foi somente depois de alguns séculos que conseguiram.

Nos tempos feudais, a terra constituía a medida da riqueza e com a expansão nascia um novo tipo de riqueza, o dinheiro. Já no início da época feudal havia dinheiro, mas era inativo, com a expansão podia ser aplicado em compras e vendas. Na época feudal, os extremos sociais eram compostos por sacerdotes, guerreiros e proprietários de terras, os outros serviam do fundo da escala social. Mas aí nascia uma nova classe que vinha a ser definida como média, os comerciantes das cidades.

Mas no princípio desta Idade, com o surgimento destas novas condições, nasceu um novo "pecado" que vinha a colocar-se como uma lei da cristandade. Emprestar dinheiro a juro era pecado, dizia a igreja e, naquele tempo, era coisa séria. Até lá, a igreja sempre ensinava aquilo que era certo e o errado, e as suas regras sobre o bem e o mal se aplicavam em todos os setores, mas por que emprestar dinheiro era pecado? Porque somente os bispos podiam violar esta lei, e emprestavam somas enormes e freqüentemente, quando os juros não eram pagos, a própria estigma papal ia cobrá-los, ameaçando com o castigo corporal e espiritual.

Lentamente, aos poucos, porém, o comércio aumentava e havia necessidade de muito dinheiro emprestado para sustentá-lo e a igreja cedeu, pois se deu conta que não podia cobrar os que emprestavam escondido e as novas leis diziam que podiam, em separando a parte que cabia à igreja, pois havia casos que desculpavam a prática, e a prática comercial passou a ser diária e livre.

Com o crescimento do comércio e das cidades e a economia se expandindo, surgiram alternativas para os camponeses mais capazes. Estendiam as culturas, abriam novas terras, aprimoravam novos métodos e, com trabalho mais intensivo, conseguiam melhorar as suas situações e até candidatar-se para adquirir novas terras. E sempre procurando novas formas, lançaram-se sobre as terras virgens e incultas que no século XII ainda eram abundantes. Apenas metade das terras da França, um terço da Alemanha, um quinto da Inglaterra, eram cultivadas, o resto eram florestas, pântanos, e terras inaproveitadas, que, porém, tinham donos. Mas muitas vezes, estes cediam as propostas e solicitações que estes interessados lhes faziam, como disse o Bispo de Hamburgo, numa carta pastoral de 1106:-

1 - Desejamos tornar conhecido de todos o acordo que certas pessoas, residindo deste lado do Reino, e que chamados de holandeses, celebraram conosco.

2 - Esses homens nos procuraram e ansiosamente imploraram que lhes concedêssemos certas terras em nossas dioceses, que estão inaproveitadas, pantanosas e inúteis para o nosso povo. Consultamos os nossos súditos e, considerando que isso seria bom para nós e nossos sucessores, concedemos o que nos era pedido.

3 - Fez-se um acordo pelo qual eles pagarão anualmente um dinar para cada jaira de terra......Também lhes concedemos o uso dos cursos de água que correm nesta terra.

4 - Concordam em pagar o dízimo de acordo com o nosso decreto. Ou seja, cada décimo feixe de cereal, cada décima ovelha, cada décimo cabrito, cada décimo ganso, um décimo de seu mel e linho....

5 - Prometeram obedecer-me em todas as questões eclesiásticas.....

6 - Concordam em pagar, todo ano, marcos para 100 jairas pelo privilégio de manter tribunais próprios para solução de todas as suas questões sobre assuntos seculares...

Este Bispo de Hamburgo celebrou esse acordo com os holandeses que resgataram suas terras ao mar e este bispo percebeu que "seria bom para ele e seus sucessores". Mas outros senhores também, tanto como a igreja, perceberam que era realmente lucrativo ter suas terras inativas transformadas em produtivas, por pessoas que ainda, pelo privilégio de fazer isso, pagavam um arrendamento anual.

Esse crescente movimento de colonização tornou produtivos milhares e milhares de hectares de terra inútil. Durante anos o camponês tinha-se resignado à sua sorte infeliz, mas este novo tipo de liberdade difundiu-se até atingir os servos das velhas propriedades.

Era de esperar que a igreja liderasse o movimento da libertação, mas, pelo contrário, o principal adversário da emancipação não foi a nobreza e sim a igreja, tanto na cidade como no campo. Numa época em que a maioria dos senhores já havia compreendido que era de seu próprio interesse libertar os servos e contratar trabalhadores livres com salário diário, a Igreja se mantinha contra a emancipação. Os estatutos de uma sua ordem são exemplo da profundidade da atitude:- "excomungamos" os que tendo controle de servos ou não libertos, homens ou mulheres, de condição "servil", pertencentes aos mosteiros da Ordem (Cluníaca) - concedam a essas pessoas cartas ou privilégios de liberdade.

Isso foi em 1320. Em 1458, cento e trinta anos depois, ainda ordenavam que "os abades e os priores e outros administradores, que ainda têm servos, devem jurar expressamente que não libertarão tais servos.....

Dois historiadores ingleses, após cuidadosa pesquisa chegaram à conclusão de que: - Essa instituição imortal, mas sem alma, com sua riqueza de registros minuciosos, não cedia de uma polegada, não libertava servo nenhum ou arrendatário. Que na prática o senhor secular era mais humano....e que contra os sacerdotes é que os camponeses se queixaram com mais energia. (F.Pollock e F.W. Maitland, History os English Law Before the Time os Edward 1 vol, Cambridge Universiti Press. P.p. 378-9.

E os camponeses não se limitavam a fazer queixas, mas invadiam, às vezes, as propriedades da igreja lhes quebrando portas, vidros, e espancando padres. Mas a liberdade estava no ar e quando não lhes era concedida, exacerbavam-se os ânimos oprimidos que muitas vezes começavam a pensar que alguma coisa estava errada, e estava, pois a Peste Negra foi o fator decisivo para esta liberdade.

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